Quem é o parteiro e quem é o parturiente? A perspectiva maiêutica para repensar autoria e responsabilidade epistêmica no uso de IA na produção científica

O artigo, de Ricardo Limongi França Coelho e Luis Carlos Coelho, usa a maiêutica socrática (a “arte de partejar” ideias) como metáfora filosófica para repensar o uso de IA na produção científica. Pontos centrais:

  • IA como parteira, não oráculo: em vez de um oráculo que entrega respostas prontas, a IA pode atuar como parceira dialógica, ajudando o pesquisador a explicitar conhecimentos latentes que ele já possuía.
  • Inversão da metáfora: quem “dá à luz” o conhecimento é o pesquisador — que permanece como agente epistêmico responsável —, enquanto a IA é o “parteiro intelectual”. Isso reposiciona o debate sobre autoria.
  • Autoria = responsabilidade: ser autor não é apenas produzir texto, mas assumir responsabilidade epistêmica pelo conhecimento comunicado. Por isso, as principais instâncias de ética em publicação (COPE, 2023) e periódicos como Science (“texto gerado por IA é análogo a plágio”, Thorp, 2023) e Nature (“LLMs não satisfazem nossos critérios de autoria”) convergem: sistemas de IA não podem ser autores, pois não podem ser responsabilizados.
  • Transparência como meio, não fim: declarar o uso de IA importa enquanto instrumento para avaliar se a responsabilidade epistêmica foi de fato exercida.
  • Formação de pesquisadores: a perspectiva tem implicações para o desenvolvimento de AI literacy (letramento em IA) e, seguindo Lloyd (2025), para a construção de padrões comunitários de colaboração humano-IA.
  • Limites reconhecidos: a abordagem não resolve todas as tensões — restam questões de viés algorítmico, desigualdade de acesso, impactos ambientais e risco de homogeneização do pensamento científico. A questão central, contudo, não é a participação da IA em si, mas a manutenção da responsabilidade epistêmica do pesquisador.

Fonte: SciELO em Perspectiva — LIMONGI, R. C. S.; COELHO, L. C. “Quem é o parteiro e quem é o parturiente? A perspectiva maiêutica para repensar autoria e responsabilidade epistêmica no uso de IA na produção científica”, Blog SciELO em Perspectiva, 19/01/2026. Disponível em: https://blog.scielo.org/blog/2026/01/19/quem-e-o-parteiro-e-quem-e-o-parturiente-a-perspectiva-maieutica-para-repensar-autoria-e-responsabilidade-epistemica-no-uso-de-ia-na-producao-cientifica/

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O jogo está fazendo o seu trabalho, mesmo que não estejamos contando a pontuação

O ensaio de Justin Neuman, professor de inglês na The New School, parte de uma cena doméstica: seus filhos ignoraram as regras de Catan e transformaram o tabuleiro em um arquipélago imaginário — não jogavam o jogo, jogavam dentro do jogo. Isso abre a distinção central do texto:

Ideias principais

  • Dois tipos de jogo: agôn (competição, regras, pontuação) versus paidia — termo do sociólogo Roger Caillois para o jogo livre, espontâneo, sem vencedor nem objetivo. A cultura digital atual colapsou todo o espectro do jogo em competição + estrutura.
  • Gamificação e “value capture”: apps de corrida, meditação, idiomas e diário transformam o lazer em trabalho — uma “terceira jornada” com métricas e culpa. O filósofo C. Thi Nguyen chama isso de value capture: a métrica devora o significado da atividade.
  • A conexão com Huizinga: em Homo Ludens (1938), Johan Huizinga já via o jogo como gerador da civilização (direito, poesia, guerra nascem do “círculo mágico” do jogo) e temia seu declínio. Hoje, diz Neuman, não matamos o jogo — capturamos e instrumentalizamos ele.
  • Winnicott e o espaço transicional: para o psicanalista Donald Winnicott, o jogo não é treino para a vida adulta; é como mantemos o mundo — e a “apercepção criativa” é o que faz a vida valer a pena. Sem isso, caímos na compliance (vida segundo scripts alheios, “presos na criatividade de uma máquina” — frase escrita em 1971, mas profética sobre os smartphones).
  • Schiller e a virtude do jogo: Schiller (“o homem só joga quando é plenamente humano”) e a eutrapelia de Aquino — jogar bem como uma virtude diária, não “equilíbrio trabalho-vida”.
  • Práticas do jogo livre: caminhar sem destino (pesquisa de Stanford: caminhar aumenta o pensamento divergente em ~60%), corridas de ultra, o trabalho manual do filho do autor com metal e madeira (que ele dá de presente, não vende), e o “improviso” de bons seminários. Onde a vida interior encontra o mundo material e algo imprevisível emerge, “o jogo está fazendo seu trabalho, mesmo sem ninguém marcando pontos”.

Conclusão: o jogo não compete pela atividade humana suprema — ele dissolve a própria pergunta. A capacidade de parar de otimizar, caminhar sem destino e criar para dar é a “magia ordinária de ser real”.


Fonte: Neuman, Justin. “Play is doing its work even if we’re not keeping score”. Aeon, 1º de setembro de 2026

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Sua percepção de tempo está, de fato, distorcida

No ensaio “Your Perception Of Time Is, In Fact, Warped” (Sua percepção de tempo está, de fato, distorcida), publicado na revista Noema por Mike Mariani, o autor investiga a sensação generalizada de que os anos estão passando em um ritmo acelerado e desorientador. O texto argumenta que o verdadeiro cerne dessa crise não é apenas a velocidade subjetiva do tempo, mas o fato de estarmos esquecendo o que vivemos devido à erosão dos momentos de silêncio e tédio, onde a memória se consolida.

Principais pontos do artigo

  • Uma crise coletiva de tempo: Em todas as faixas etárias — de jovens a idosos —, tornou-se frequente o lamento de que os anos recentes parecem comprimidos em um borrão indiferenciado. O autor compara isso a uma perda generalizada de senso de profundidade, agravada por sucessões de crises históricas (como a pandemia de Covid-19, guerras, mudanças climáticas e o avanço vertiginoso da inteligência artificial).

  • Teorias clássicas da percepção temporal:

    • Percepção Logarítmica (Paul Janet): Cada ano representa uma fração percentual menor do total de nossa vida à medida que envelhecemos (1 ano representa 10% da vida de uma criança de 10 anos, mas apenas 2% de quem tem 50).

    • Novidade vs. Rotina (William James): Na juventude, experiências ricas e inéditas fazem o tempo parecer mais longo e denso em retrospectiva. Na idade adulta, a rotina esvazia os períodos de marcos distintivos, fazendo os anos “desmoronarem”.

  • A contradição entre momento e memória retrospectiva: Estudos comportamentais sobre o período de quarentena na pandemia revelaram um paradoxo: momentos de tédio e confinamento arrastavam-se no presente, mas ao olhar para trás pareciam ter voado instantaneamente, criando um efeito de dias idênticos e indistinguíveis (o fenômeno do “Blursday”).

  • O mito do “relógio interno”: A neurociência contemporânea não sustenta mais a ideia de um “marca-passo” biológico único que dita o tempo como um relógio físico. Em vez disso, a percepção temporal é um construto mental dependente do processamento de estímulos visuais, da atenção e da taxa de atividade cerebral.

  • A perda do tédio e a consolidação de memórias: No mundo contemporâneo, a constante estimulação digital, o consumo acelerado de telas e a ausência de pausas reflexivas impedem que o cérebro processe e consolide recordações duradouras. Sem memórias marcantes e sem os intervalos de ócio em que a mente organiza suas experiências, grandes blocos da nossa vida simplesmente deixam de ser registrados, gerando a sensação de que o tempo escorreu sem deixar vestígios.

Fonte:

Mariani, Mike. “Your Perception Of Time Is, In Fact, Warped”. Noema Magazine, setembro de 2026.

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A surpreendente ligação entre falsas memórias e imaginação

O cérebro humano não funciona como uma câmera de vídeo que registra fatos de forma estática e exata para posterior reprodução. Como ilustra o caso do neurocientista Oliver Sacks — que guardava lembranças vívidas de bombardeios da Segunda Guerra Mundial que nunca chegou a presenciar —, a memória é um sistema ativo de reconstrução contínua. Toda vez que tentamos nos recordar de um evento, o hipocampo reúne fragmentos dispersos de informações passadas e remonta a cena no momento presente.

Esse mecanismo é descrito na neurociência pela Hipótese da Simulação Episódica Construtiva, a qual revela que a memória e a imaginação utilizam exatamente a mesma base neural. O mesmo processo cerebral empregado para reconstruir o passado é mobilizado para projetar o futuro, conceber cenários hipotéticos e produzir novas ideias. Pacientes com lesões no hipocampo, por exemplo, frequentemente perdem tanto a capacidade de recuperar lembranças quanto a de imaginar situações inéditas, comprovando o elo intrínseco entre recordar e inventar.

Por essa razão, as falhas de recordação e as chamadas falsas memórias não constituem defeitos de processamento cognitivo, mas sim a contrapartida necessária da criatividade humana. Se a mente operasse com rigor inflexível de arquivo documental, perderia a maleabilidade de recombinar conceitos, associar elementos díspares e gerar soluções originais. Assim, a imprecisão mnemônica revela-se o motor indispensável da inovação, alertando ainda sobre como ambientes de trabalho que exigem conformidade mecânica e tolerância zero a desvios cognitivos acabam por sufocar o pensamento criativo.

Fonte:

https://bigthinkmedia.substack.com/p/the-surprising-link-between-false

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A grande descontinuidade chegou

O artigo “The Great Discontinuity Has Arrived” aborda o colapso das suposições tradicionalmente otimistas sobre o futuro, substituídas por ansiedade e medo de uma distopia que antes parecia restrita a romances de ficção científica. O autor argumenta que o “fim do mundo como o conhecemos” não significa o fim absoluto, mas sim o início de um longo e conturbado caminho em direção a uma vida radicalmente diferente. A Grande Descontinuidade marca uma transição em que sistemas complexos, como a civilização industrial moderna, enfrentam um colapso iminente devido a limites físicos e financeiros.

O texto destaca que, em momentos de crise, funções práticas — como carpintaria, encanamento, reparos mecânicos e jardinagem — ganharão destaque, enquanto profissões como direito, economia ou negociação de ações perderão relevância. Além disso, questiona o que acontece quando uma superpotência benigna (como os EUA) deixa de ser “super”, um cenário que já está em curso. A crise financeira, econômica e política que se aproxima será medida em décadas, não em trimestres ruins, e afetará profundamente blocos regionais, como o Sudeste Asiático, que sofrem com a escassez de petróleo do Oriente Médio.

Fonte: The Honest Sorcerer – Substack

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Em 1949, cinco gatos foram levados a uma ilha para combater ratos e, 77 anos depois, o resultado virou um desastre ambiental

Em 1949, cinco gatos domésticos foram levados à Ilha Marion — um território subantártico localizado a cerca de 2.300 km ao sul do continente africano — com o objetivo de controlar uma infestação de ratos que ameaçava os estoques de alimentos de uma estação meteorológica. Os ratos, introduzidos por baleeiros no século XIX, haviam se multiplicado sem predadores naturais.

No entanto, a introdução dos gatos desequilibrou ainda mais o ecossistema. Sem predadores naturais, a população felina cresceu descontroladamente, chegando a mais de 2 mil indivíduos em poucas décadas. As aves marinhas da ilha, como petréis e albatrozes, que haviam evoluído sem a presença de mamíferos predadores, tornaram-se presas fáceis, levando ao declínio de várias espécies.

Para reverter o problema, autoridades iniciaram, a partir de 1977, um programa de erradicação dos gatos, que incluiu captura intensiva, caça noturna e o uso do vírus da panleucopenia felina. O último gato foi eliminado apenas em 1991. Contudo, a remoção dos felinos permitiu que os ratos se multiplicassem novamente, colocando em risco 19 das 29 espécies de aves que nidificam na ilha.

Atualmente, um projeto chamado “Mouse-Free Marion”, com custo estimado em US$ 25 milhões (cerca de R$ 127 milhões), busca exterminar a população de ratos — seguida em até 1 milhão de indivíduos — para restaurar o ecossistema. A operação, financiada pelo governo sul-africano e doações internacionais, não admite erros, pois até mesmo uma pequena parcela de ratos sobreviventes poderia comprometer todo o esforço.

A história serve como um alerta sobre os riscos de interferir em ecossistemas isolados e a importância de avaliar as consequências a longo prazo de soluções aparentemente simples.


Fonte: MSN – Em 1949, cinco gatos foram levados a uma ilha para combater ratos e 77 anos depois o resultado virou um desastre ambiental

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Os cientistas deixaram este campo de fazenda sozinhos. Milhares de orquídeas apareceram

Pesquisadores da University College London (UCL), liderados pelo professor Carl Sayer, descobriram que um campo agrícola abandonado em North Norfolk (Reino Unido) se transformou em um prado repleto de flores silvestres em pouco mais de uma década, sem intervenção humana. O estudo, publicado na revista Restoration Ecology, acompanhou a recuperação natural do local por 11 anos (2011-2022). Após o fim do cultivo em 2005, a área foi deixada em repouso, com apenas um corte anual de feno.

Os resultados mostram que a diversidade de plantas dobrou, com o aparecimento natural de milhares de orquídeas e outras espécies raras, como a orquídea southern marsh orchid e a yellow rattle. A pesquisa questiona a necessidade de métodos caros, como o uso de sementes comerciais, para restaurar a biodiversidade, sugerindo que a paciência e a permissão para que a natureza se recupere sozinha podem ser mais eficazes e econômicas. Além disso, a abordagem natural preserva a diversidade genética das plantas locais, adaptadas ao ambiente.

O estudo destaca que a recuperação espontânea da natureza pode ser uma ferramenta poderosa para restaurar ecossistemas degradados, especialmente em grandes áreas de antigas terras agrícolas, contribuindo para a resiliência ecológica e a adaptação às mudanças climáticas.


Fonte:
University College London (UCL). “Scientists left this farm field alone. Thousands of orchids appeared.” ScienceDaily, 23 de agosto de 2026. www.sciencedaily.com/releases/2026/08/260822015208.htm.

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Pesquisadores chineses desenvolveram um sistema de imunidade vegetal programável

Pesquisadores chineses desenvolveram um sistema de imunidade vegetal programável, um avanço inovador na engenharia imunológica de plantas. A nova plataforma permite o design sob demanda de receptores imunes sintéticos, oferecendo um caminho técnico universal para o cultivo de resistência duradoura e de amplo espectro em culturas agrícolas.

O estudo, liderado por uma equipe do Instituto de Genética e Biologia do Desenvolvimento (IGDB) da Academia Chinesa de Ciências, foi publicado na revista Science em 24 de julho de 2026. Tradicionalmente, a melhoria da resistência das culturas dependia da mineração de genes de resistência natural, um processo lento e ineficiente. Agora, com o uso de inteligência artificial (IA) e engenharia de proteínas, os cientistas conseguiram projetar proteínas de ligação de alta afinidade direcionadas a proteínas de patógenos, criando receptores imunes sintéticos inteiramente novos.

Essa tecnologia representa uma mudança de paradigma, passando da dependência da natureza para a criação direcional de genes de resistência, permitindo o desenvolvimento rápido de receptores imunes dedicados contra patógenos emergentes ou mutantes. Segundo a pesquisadora Gao Caixia, a integração profunda de IA, engenharia de proteínas e evolução dirigida de plantas possibilitou a capacidade de projetar sistemas imunes vegetais de forma autônoma, oferecendo uma solução chinesa original para a segurança alimentar global.


Fonte: The Express Tribune

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O uso excessivo de fertilizantes sintéticos pode prejudicar os microrganismos essenciais do solo

O uso excessivo de fertilizantes sintéticos pode prejudicar os microrganismos essenciais do solo, que são fundamentais para a saúde e a produtividade das culturas agrícolas. Esses micróbios, presentes em grande diversidade no solo, ajudam a sustentar plantas resilientes e saudáveis, além de melhorar a absorção de nutrientes. Com a alta nos preços dos fertilizantes, reduzir seu uso pode não apenas economizar dinheiro, mas também estimular a atividade natural desses microrganismos, beneficiando a longo prazo a produtividade e a resistência das culturas a secas e pragas. Estudos indicam que a diminuição do uso de fertilizantes pode aumentar a produção de exsudatos radiculares, que, por sua vez, melhoram a capacidade das plantas de absorver nutrientes por conta própria, reduzindo a dependência de insumos externos.


Fonte: The Conversation – Fertilizers carry a hidden cost for soil’s crucial microbes – using less as prices rise might pay off for farms in unexpected ways .

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Justiça gaúcha consolida proteção à biodiversidade contra os danos da deriva

Em uma demonstração exemplar de vanguarda e compromisso com o desenvolvimento sustentável, o Poder Judiciário do Rio Grande do Sul proferiu uma decisão histórica na Ação Civil Pública movida por associações de produtores de maçã e de vinhos finos da Campanha Gaúcha.

Diante dos severos e comprovados prejuízos que a dispersão do herbicida hormonal 2,4-D — amplamente utilizado na cultura da soja — vinha causando a cultivos vizinhos de extrema sensibilidade, o Tribunal de Justiça gaúcho uniu rigor técnico e sensibilidade social para resguardar a riqueza da nossa biodiversidade agrícola. A sentença proferida pela Vara Regional do Meio Ambiente impôs a proibição do uso do agrotóxico na Campanha Gaúcha e estabeleceu limites de distanciamento protetivo em todo o estado.

Fonte:
https://www.brasildefato.com.br/2026/07/01/justica-gaucha-consolida-protecao-a-biodiversidade-contra-os-danos-da-deriva-do-24-d/

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